Rick Bonadio que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem

 

No dia 31 de dezembro de 2016 o produtor Rick Bonadio, jurado do X-Factor Brasil (reality show musical que é um desastre de audiência na Band) e responsável por alçar bandas pop de qualidade (bem) duvidosa ao sucesso, como Rouge e NxZero, declarou em seu facebook seu descontentamento com a cena musical brasileira atual. O que, para mim, é mais um indício claro da riqueza, diversidade, frescor e qualidade da música brasileira contemporânea. Mas vá lá, antes de descer a lenha nesse tonto vamos dar uma olhadinha no que ele disse:

 

“Feliz 2017 a todos e chega de música ruim! Todos nós sabemos que vivemos o pior momento em termos de qualidade na música brasileira. Criticar e reclamar não vai nos trazer de volta belas canções com letras criativas e poéticas então vamos trabalhar por isso. Mais ainda, vamos lutar por isso, já que amamos a música. A música de certa forma refletiu a economia do país nos últimos anos. As coisas iam bem e com dinheiro muita gente deixava de ficar em casa curtindo uma boa música para ir a baladas e shows, muito mais de pegação e bebedeira, do que para ouvir boa música. Assim nasceram os sucessos que vieram dessas “baladas” e eram músicas muito pobres e fúteis. Com a economia em baixa vamos ter o contrário em 2017. As pessoas ficam mais em casa, gastam menos com futilidades e acabam procurando músicas que preencham suas necessidades emocionais. Aí entramos nós! Precisamos oferecer músicas boas. Artistas novos com força e personalidade. Precisamos fazer de verdade a música boa, não apenas sair postando no YouTube qualquer idéia mais ou menos que se tenha. Vamos ser criteriosos. Vamos estudar mais, pesquisar mais, compor mais e interpretar com a alma.”

 

Então vamos lá. Em um ano que o mundo parou para aplaudir de pé o álbum da veterana Elza Soares, que a cantora Céu colecionou elogios da cena internacional por Tropix, que o festival Primavera Sound, em Barcelona, levou nada menos do que sete bandas brasileiras para os palcos espanhóis (Water Rats, O Terno, Aldo The Band, INKY, Mahmed, Quarto Negro e Nuven) e muitos outros bons discos foram lançados, gente do naipe de Carne Doce, BaianaSystem, O Terno, Mano Brown, Mahmundi, The Outs, Metá Metá, entre muitos outros, enquanto os goianos do Boogarins faziam turnê pelos Estados Unidos. Ano de muitos festivais mainstream e, o que me deixa mais feliz, underground como o Bananada (que já chegou a sua 19º edição!), o Do Sol, o Fora da Casinha e o Dia da Música chegando em suas segundas edições, este último levando centenas de palcos para o Brasil inteiro como acontece há mais de 3 décadas na França, no Fête de la Musique. Eu realmente me pergunto a que tipo de música boa exatamente Bonadio se refere? Rouge e NxZero? Tihuana? O Surto? LS Jack? Seriam esses os artistas aos quais ele se referia como exemplo de autores de “belas canções com letras criativas e poéticas”? Justiça seja feita que Bonadio não produziu SÓ música ruim, teve ali uns clássicos bons do pop rock brasileiro como o primeiro do Charlie Brown (Transpiração Contínua Prolongada, 1997), o disco homônimo dos Mamonas Assassinas 1995), o disco de estreia do Los Hermanos (Los Hermanos, 1999) e mais um ou outro. Mas basta olhar para a trajetória do cara que você vai perceber que música boa nunca foi o principal critério do sujeito.

 

Fica claro que Bonadio só fala e só se importa com a superfície da superfície do mundo musical, o chamado mainstream, o que já me assusta. A choradeira de Bonadio, na verdade, vem do seu provável sentimento de impotência diante da nova cena. De um lado tem o mainstream tomado de assalto pela espontaneidade da internet, o funk, os ritmos do Nordeste e do Norte e outras formas de música popular se espalhando de maneira viral em downloads, pen drives, cds e dvds piratas, a difusão, o crescimento dos nichos dentro da cultura de massas. Do outro lado a cena alternativa também se organiza cada vez mais e produz com cada vez mais qualidade, organiza festivais cada vez melhores e mais relevantes, gera centenas e centenas de novas bandas e artistas por ano que tocam dos Sescs aos inferninhos da vida e vai aprendendo a se profissionalizar cada vez mais. E eis aí todo problema: a espontaneidade cultural do povo nunca interessou aos enlatadores e pasteurizadores de música das grandes gravadoras. Bonadio é da época em que se inventava conscientemente o próximo sucesso do verão e sente saudade dos tempos em que era ele o “fodão” que fazia isso. Claro que o capital não perde tempo e qualquer “meu pau te ama” que surja espontaneamente vai ser cooptado rapidamente por uma major se vacilar, mas isso tornou o jogo mais incerto e os dinossauros tem dificuldade de lidar com esse meteoro. Toda essa fragmentação de produções e fontes de conteúdo só pode desesperar quem vive da alienação e depende da homogeneidade do pensamento único, do monopólio de mídia etc.

 

Aí vem o mimimi coxinha que resumindo diz que o brasileiro é burro e fútil. E que a crise econômica vai trazer músicas melhores, porque afinal a gente é burro e fútil e gente assim não pode ganhar dinheiro que gasta em merda e não em cultura. É muito curioso ver o tipo de gente que trabalha justamente pele esvaziamento e massificação da cultura ter a cara de pau de soltar um texto desses. Pois bem, quem ama música de verdade sabe que temos um bom momento e que só tende a melhorar e a crise econômica obviamente é o único fator que pode atrapalhar e dar alguma força a gente como Bonadio, mas torceremos e trabalharemos para que isso não aconteça.

 

Então pode chorar mais que tá pouco, Bonadio. Que 2017 seja musicalmente o dobro do que foi em 2016. Feliz ano novo.  

 

Deixe uma resposta