O verão nos olhos de Childish Gambino no clipe de “Feels Like Summer”

Novo clipe de Childish Gambino reúne grandes artistas do hip-hop em animação

Setembro mal chegou e Childish Gambino brindou o verão no videoclipe de “Feels Like Summer”. A música faz parte do Summer Pack, lançado em julho de 2018, e traz referências a temas globais sobre os quais eu não estou muito preocupada em retratar agora.

Para ser sincera, a música não tinha me atraído tanto. Mas como quase todo clipe de hip-hop principalmente hoje em dia, o audiovisual novamente surpreendeu. Inclusive, o audiovisual deve muito ao hip-hop, mas isso é tema para outras conversas. Antes de Childish Gambino, vimos peças deslumbrantes de iluminação, direção e produção.

Na verdade, a gente também já viu reflexões sociais e políticas desse nível, mas o que rola é que o Donald Glover (nome real de Gambino) ressuscitou um pouco a mágica de combinar todas essas ferramentas. Se você não gosta muito de rap, hip-hop, ou até mesmo do Childish Gambino, provavelmente abriu esse artigo simplesmente por se tratar de mais um clipe do cara.

Após o sucesso de This is America, o mundo tá de olho no que ele produz, mesmo que seja para fingir que não viu depois. Dessa vez fomos premiados com uma animação brilhante, agraciada pela arte de Justin Richburg e dirigida por Ivan Dixon e Greg Sharp, além do próprio Donald Glover.

É impressionante como não consigo escapar da cilada de escrever sobre Childish Gambino. Esse homem rasga meus pensamentos consagrados fazendo uma catálise digital de música, arte e sociedade, instigando a reflexão pútrida de ter que dizer algo sobre isso. Que absurdo. E eu bem que queria conhecer quem mais está por trás dessas produções maravilhosas.

O rap game ganhando cada vez mais participantes enquanto Donald Glover passeia em uma vizinhança tranquila, num som de mar aberto, verão quente que traz paz, mas derrete a alma de alguns jogadores. Seria o rap game um esquema autodestrutivo provocado pelos seus próprios criadores? Estaria por aí causando algumas catástrofes punitivas por consequência natural da indústria?

Nah, só mais um dia de sol, rapazeada. Negros fazendo o game, como sempre. Consagrados ou não, lutando para chegar longe numa máquina visceral de produção artística etiquetada, domada de artifícios de imagem e transgressões fatais. A arte e a negritude então se encontram na vizinhança, são amigas de longa data.

Foto: Divulgação/YouTube.

Enquanto passeia pela rua, Childish passa por grandes artistas da cena atual, além de reverenciar aqueles que serão eternamente ícones dessa cultura. Alguns aprenderam suas lições, estão ensinando a moçada que aparece por aí. Outros serão eternamente lembrados pelos seus erros, até mesmo depois da infortuna morte.

Tem aquele que padeceu em vida, continuará catando os pedaços sem ter como completar a figura, quebrou outras cabeças e deixou o trono se perder pelo próprio punho. E desse Love On The Brain uma das maiores lendas da música afincou sua importância ao lado de grandes vizinhos.

Foto: Divulgação/YouTube.

Posso estar errada, mas o jogo tá esquentando, e não há muita mudança quanto parece. Em muitos momentos, é uma história divertida de se acompanhar. Mas carregada de melancolia. É bonita a forma como Childish faz uma ode aos prestígios e vícios da cena. Ao mesmo tempo em que é importante pra quem já a acompanha há algum tempo, mostra que alguns fatos, como a violência e as doenças mentais, continuam acompanhando seu progresso.

Sua visão sobre tudo é quase onisciente, exceto quando fecha os olhos e reflete sobre algumas das piores situações que parte dessa gama de artistas enfrentou. Ou quando nos emociona trazendo grandes ícones desse movimento que pulsa vorazmente em nossas veias e caixas de som, mesmo que carbonizado pelas ondas quentes de obstáculos. Impossível não ficar comovido com a figura de Michael Jackson nos anos 70, ou com a Beyoncé trajando a camiseta com “RIP Fredo Santana”.

Foto: Divulgação/YouTube.

O grande mérito desse clipe não é a reflexão, como em This Is America. Mas a ideia grandiosa de mostrar a cena como uma cena em si, ou seja, a forma como nós, espectadores, e, principalmente, ouvintes dos artistas retratados, estamos percebendo tudo, mesmo que sob os olhos de Childish Gambino.

Eu nem precisava estar aqui dizendo tudo isso, mas acho válido retratar as sensações que esse tipo de clipe andam criando, a ponto de me fazer pensar em tanta coisa numa tarde e provocar emocionalmente minhas subjetividades sobre música. Espero que o mesmo tenha acontecido com você, que, por sinal, se estiver mesmo a fim de entender o que cada artista representava ali, é só procurar qualquer outra notícia sobre o clipe. A minha preferida, na real, é a explicação do Delatorvi, que além de artista, é um seguidor de tudo que ali foi representado. Confira aqui.

Posicione a cadeira, ajuste as lentes e aprecie mais uma obra de Gambino. O verão no Brasil ainda não chegou, mas com certeza levaremos essa música com a gente pra beira das praias ao lado de uma boa caipirinha, nem se lembrando mais quem é quem no calor daquela vizinhança.

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