Ian Cardoso resgata experiências existenciais no EP “Reina”

Em estreia solo, o baiano Ian Cardoso reúne instrumentais peculiares e letras viscerais, deixando a música domar a coisa além da coisa

No embalo do lançamento, artista faz show no Brazileria Bar, em São Paulo

Na agenda atual de lançamentos muito se fala em encontrar materiais multifacetados, que conseguem unir sonoridades diversas e compor um conceito uno. Mas quem disse que é isso que estamos procurando ouvir? Os trabalhos que realmente vêm conquistando ouvintes são aqueles em que percebemos honestidade musical. Ou seja, quando sentimos, por meio da música, que o artista fez aquilo que desejava e que mais correspondia com a sua proposta pessoal.

Eis que acaba de ser lançando mais um exemplar dessa safra, e vem direto da Bahia. O instrumentista, compositor e arranjador Ian Cardoso lançou seu primeiro EP solo, o visceral e catacréstico Reina. Lançado no dia 9 de setembro, conta com cinco músicas domadas de um instrumental carregado de arranjos peculiares, principalmente os de sopro. Dê o play e acompanhe esse percurso musical sobre a coisa além da coisa:

Reina se inicia com o single “O MEDO”, que conta com a participação de Rebeca Matta. Logo em seguida, entra a melancólica “acoisaalémdacoisa”, que dura apenas um minuto, mas deixa os latidos de cachorro pregados na cabeça com o instrumental perfeitamente bem posicionado no EP. A disposição dessa canção encaixou a tal ponto que quase não se percebe que houve uma troca de músicas. É um encerramento coerente para “O MEDO” e um ponto de partida incrível para a gloriosa “REINA”, que vem a seguir.

Ian Cardoso adentra temas existenciais tanto pela já elogiada e bem colocada instrumentalidade quanto pela letra, que, de forma visceral, arranca estímulos arrepiantes nos ouvintes. O tratamento dado à existência em “REINA” extrapola a noção direta que temos com tudo ao nosso redor, explicando a necessidade de explorar a coisa além da coisa. O ápice da canção, e até do EP, é a leitura do texto incidental por Bruno Torres. Seu conteúdo afinca uma reflexão profunda e imagética sobre a existência do homem. Confira o último trecho:

O que nos resta são os êxtases, os transes, as delícias das mágicas dos bem-aventurados. Se salvam e nos salvam, por segundo. O ritmo dessas erupções reina.

Foto: Lara Perl/Divulgação

Os sopros do fim da canção são tão imponentes que quase incomodam, mas logo desperta a animada “CAROÇO DE MAMÃO”. É outra instrumental recheada de componentes, como sax tenor, trompete e trombone. Essa canção é quase a definição de um baião elétrico, resgatando as raízes de Ian Cardoso de forma extrovertida. Por fim, temos a astral “Granularr”, que trata da dúvida, das incertezas e da agonia triunfante de existir.

Com isso se completa o EP Reina, que concretiza Ian Cardoso como um dos artistas mais honestos da atualidade. É música no estado natural, em estado nenhum, que nutre necessidades oníricas e arrebenta sonoridades banais. O resultado tem ligação com a completude artística de Ian, que dialoga com outras linguagens, como teatro, dança e performance. Assim, o artista fez uma espécie de tradução dessas linguagens para a música, estimulando diferentes sensações nos ouvintes.

Foto: Lara Perl/Divulgação

No embalo do lançamento, Ian Cardoso se apresenta no Brazileria Bar, no bairro da Lapa, em São Paulo, na quinta-feira (13), às 21h. A entrada custa R$ 20. O músico toca acompanhado dos também baianos Aline Falcão, no teclado, e Alexandre Vieira, no baixo. No repertório, só canções autorais, do EP e de outros projetos que participa.

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