Essa não é apenas a América – O clipe de Childish Gambino além das referências

A caça às referências no vídeo de This is America distancia o espectador de sua principal motivação

Não é novidade para ninguém que o novo vídeo do Donald Glover é um dos mais incríveis dos últimos anos. Sob a alcunha de Childish Gambino – nome que, diga-se de passagem, foi gerado no Wu Tang Name Generator –, o ator e rapper americano lançou o clipe de “This is America” no último sábado (5), no Saturday Night Live.

É claro que surgiram diversas teorias e explicações sobre as referências genialmente construídas, já que, afinal, elas cimentam as ideias de Glover. Mas de repente nos vemos fazendo exatamente o que o artista critica no vídeo dirigido pelo célebre Hiro Murai: entretidos por querer desvencilhar cada detalhe minuciosamente, damos mais importância à estética e ao conceito do vídeo e acabamos esquecendo o que de fato gerou a obra.

Tudo começa com uma canção animada que lembra o contexto no qual a música negra ascendeu por meio do violão e dos cantos tribais nos Estados Unidos. Um mix de blues com as batidas e cantos africanos dá a entender que esse será apenas mais um clipe dançante para se divertir assistindo. No entanto, o que se percebe a seguir é uma série de referências a acontecimentos e fatos marcantes na história da população negra. De Jim Crow à Charleston, são várias as inspirações já detectadas e difundidas na maior parte das reações na internet.

O problema surge quando alguns detalhes menos explícitos, mas igualmente importantes, são deixados de lado, impedindo que haja a verdadeira reflexão proposta pelo vídeo. Quase passa despercebido o carinho com o qual as armas da cena inicial e a do coral são tratadas. Enquanto o corpo da primeira vítima é empurrado de qualquer jeito no fundo da cena, as armas são cuidadosamente deixadas sobre panos vermelhos com as crianças. A mensagem é clara: nos Estados Unidos, armas valem mais que vidas negras, e essa conclusão não poderia ser mais clichê para qualquer tipo de análise desse vídeo. Childish Gambino quer que a gente vá além disso.

Mesmo após atirar em várias pessoas, o protagonista continua dançando e entretendo as crianças no vídeo, que agora acompanha umas batidas de trap que lembram o ritmo do sul estadunidense, se conectando à eminente violência da trama. Os passos de dança que lembram o estilo sul-africano do Gwara Gwara ajudam o artista a chamar a atenção das crianças, o que mostra a crítica à mídia que distrai a população jovem com memes e batidas divertidas, ampliando o silenciamento dos acontecimentos que violam os direitos das minorias. Mais uma conclusão clichê quando feita de modo irreflexivo e automático.

A tendência ao ver um clipe como esse é se surpreender e se indignar, mas depois permanecer intacto. E, novamente, em todas as análises damos mais importância para a genialidade do artista em retratar todos esses fatos por meio de referências complexamente construídas e não ao que inspirou, afinal, o vídeo. Será mais um que vamos assistir, comentar “melhor vídeo do ano” e continuar ignóbeis? A denúncia da violação dos direitos da população negra vem sendo retratada há anos e tudo que fazemos é aplaudir artistas, se chocar por 4min4s e seguir como se 4:44 fosse a real obra-prima da cena.

Precisamos parar de engolir análises prontas e partir para a reflexão de verdade. Enquanto canções como Tombei, da Karol Conká, são tocadas em todas as festas e disseminadas em peso nas redes sociais, músicas como Marielle Franco e Delação Premiada, da Mc Carol, passam despercebidas. Isso mostra que, no Brasil, as pessoas também omitem aspectos ligados à denúncia da violência contra a população negra e dá preferência à exaltação de sua cultura como forma de entretenimento no que tange a produção artística. Não é um problema exclusivamente estadunidense, e agir como se fosse reforça o distanciamento com o qual tratamos as problemáticas que assolam as minorias à nossa volta.

Na música brasileira acontece o mesmo, porque no Brasil a realidade é análoga. No mundo, a realidade é análoga. O clipe de “Minha Alma: A Paz que Eu Não Quero Ter”, d’O Rappa, foi o grande vencedor da Video Music Brasil da MTV, em 2000. Ganhou como melhor clipe de rock, melhor direção, melhor fotografia, melhor edição e melhor clipe do ano. São quase seis minutos de denúncia social nas favelas brasileiras. Ou seja, vídeos como o de Donald Glover, mesmo que sem a genialidade de referências do artista ou a direção espetacular do Hiro Murai, já vem sendo feitos não só nos Estados Unidos – vide o alarde de Formation, da Beyoncé –, mas aqui, no nosso país, porque a realidade negra não é uma questão exclusivamente norte-americana. E, mesmo assim, também são esquecidos com o tempo, porque a reflexão se perdeu em meio ao conforto da indignação temporária e da assimilação de manchetes prontas.

Toda vez que sai uma notícia de violência com temáticas tais quais as retratadas em “This is America”, os espectadores leem e até se indignam, mas depois as esquecem.  A capacidade de reflexão está cada vez mais perdida e a aceitação de todo tipo de informação como conteúdo faz com que surjam fundamentos em ideias rasas, gerando críticas curtas que duram por 300 retuítes e ficam nisso mesmo.

Há uns dias eu estava vendo os vídeos do Lollapalooza Chicago 2017 e percebi que a plateia do show do Wiz Khalifa era predominantemente branca. Não é por ser negro que seu público também deve ser, mas a forma como sua música impacta os diferentes segmentos raciais é diferente, e a ausência de fãs negros não é um fato isolado. Isso não acontece do nada, é o resultado de opressões acumuladas que criaram regimes de separatismo econômico fantasmagoricamente disfarçados pelo mito da acepção cultural negra. “I love my niggas like white people love rap” é um verso da música  ALASKA, do BROCKHAMPTON, que resume um pouco essa ideia de mídia que o Donald Glover quis passar no vídeo.

Enquanto a gente discute a ideia clichê de modernidade líquida e todas suas acepções, Nill montava jovens telas trincadas mostrando que, hoje em dia, informação é mais uma face de celular. Glover retrata isso quando mostra as crianças em uma parte do vídeo ocupadas em filmar tudo para postar nas redes, o que representa o público que assiste os horrores do cotidiano, mas se preocupa mais com likes do que em reagir. A crítica fica clara junto ao verso “This a celly / That’s a tool”.

A cultura negra é exaltada quando são alguns passinhos e estilos de dança e música, mas sua realidade é silenciada, até porque existem várias mídias negras que falam isso há muito tempo com propriedade e também não alcançam tanto ibope quanto ritmos populares e notícias que tratam o negro como entretenimento. Lélia Gonzalez está denunciando o silenciamento negro feminino desde a década de 80 e pouca gente repara a falta de mulheres negras protagonistas no vídeo, até vir um fã da SZA e notar a presença da cantora na cena final.

A mulher está ali assistindo tudo como se fosse apenas espectadora. Porém, na realidade, nos Estados Unidos, no Brasil, no mundo, as mulheres negras são as que têm seus direitos mais violados em todas as questões. De Angela Davis à Djamila Ribeiro, são várias as pensadoras e filósofas que já vêm levantando essas questões há muito tempo. As desigualdades estruturais integram a música e nós as ignoramos por medo de confrontar nossos próprios valores e privilégios. Até nessa obra-prima de Donald Glover, a mulher é representada no máximo pelas crianças dançando e pela SZA, espectadora. Apesar disso, acredito e espero que tenha sido proposital e ela venha como colaboração futura pra fincar mais uma reflexão acerca da causa das mulheres negras. Glover pode ter se valido disso propositalmente, deixando essa ausência também como forma de crítica. Mas se não, encontramos a primeira falha do aclamado vídeo. Mesmo as obras mais incríveis não podem mais silenciar as mulheres negras. Elas estão sendo violadas e assassinadas há muito tempo e até mesmo quando a gente vê esse tipo de denúncia na música elas são silenciadas.

A cena de suicídio no fundo do vídeo enquanto dançam Gwara Gwara foi uma das mais ignoradas. Mais uma representação fiel. As doenças mentais passaram a ser taxadas de romantizadas nas redes sociais, porque toda vez que alguém se expressa nesse sentido é ignorado. E, principalmente, quando são pessoas alheias à nossa realidade que realizam tal ato, ignoramos mais ainda. Esquecemo-nos de olhar para o outro e enxergar que, muitas vezes, aquela exposição é válvula de escape. Quando for um do seu lado você vai se indignar por dois anos e depois esquecer, assim como vai se chocar com o vídeo por quatro minutos e depois fingir que é só mais um clipe cheio de referência antirracista e contrária à política de armas? Novamente, é preciso reconhecer privilégios, analisar o teor do vídeo e refletir de verdade.

A realidade do armamento x negros no Brasil é retratada há muito na música, porque há muito tempo a população negra vem sendo extirpada da sociedade como se realmente valesse menos que as armas. Em 1997, o massacre de Carandiru de 1992 que deixou 111 detentos mortos foi exaltado na célebre “Diário de um Detento”, dos Racionais. A música se tornou a maior representação artística do ocorrido, e o clipe levou os prêmios de Melhor Vídeo de Rap e Clipe do Ano do VMB de 1998. Na época, ele também causou a indignação e o choque que “This is America” está causando agora. E, no entanto, a realidade carcerária no Brasil permanece a mesma, o local da tragédia foi demolido e deu lugar a uma área de lazer, como se nada tivesse acontecido.

A dança final no carro lembra o vídeo original do Michael Jackson de “Black or White”, em que mostra o cantor dançando em cima de um carro com escritos racistas e quebrando o veículo, além de atirar em uma janela com o slogan do KKK – Ku Klux Klan, grupo de supremacistas brancos norte-americanos – e se transformar em uma pantera negra no final da cena. Donald Glover é também essa pantera negra: conciso e marcante em suas referências, mas mais ainda em sua representação. Ele não é apenas mais uma vítima, ele assume a figura do negro na sociedade americana, assim como Amanda Cavalcanti, da VICE, apontou.

A última cena é uma das mais pontuais. Reflexo direto de uma das partes do filme Get Out (2017), ela mostra que o negro continua alocado em um lugar desesperador na sociedade, sendo o maior alvo da violência. Revela também a distorção que a mídia faz dos casos que envolvem negros, como se eles fossem os indivíduos perigosos, quando, na verdade, são os que mais temem, pois são mortos por motivos simples, como a posse de um baseado – representado na longa pausa do vídeo.

Essa não é apenas a América. Essa não é apenas mais uma música de denúncia social. Não é só mais um clipe genialmente construído por referências consistentes. Isso não acontece apenas na “América”. Acontece aqui, hoje, no Brasil. Isso representa os Estados Unidos e o mundo inteiro. Enquanto o mal continuar sendo banalizado e as pessoas deixarem de reagir às atrocidades que matam e violam minorias todos os dias, tudo vai continuar rolando por debaixo dos panos e depois celebrado em um vídeo bonito e surpreendente como se fosse só isso.

Precisamos de menos bacharéis em problematizar sem nexo, refletir é muito mais que ler uma notícia no Twitter ou ver um clipe desses e pensar “nossa, que crítica social boa”. Apesar de o clipe instigar a reflexão, ela se revela momentânea e acomodada. Tratar “This is America” apenas como um retrato da dura realidade negra americana é reforçar o distanciamento das causas sociais que atingem nosso cotidiano todos os dias. É necessário agir dentro da sua capacidade, às vezes só mostrar para outra pessoa e incentivar essa reflexão nela também. Para quem vive isso dia a dia e passa noite a noite tomado pelo desespero, não há necessidade de interpretação nem busca por referências, tudo fez sentido naqueles 4:04.

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