Entrevista: PESSA, Thought Crimes e Mafra – A cena independente grita em BH

Revelando a potência energética da cena independente de Belo Horizonte, PESSA, Thought Crimes e Mafra contam do show na Casa do Jornalista e adentram seus projetos artísticos

“Assista a shows! Vá a festivais, veja suas bandas preferidas, conheça novas bandas. Fortaleça a cena local”. Esse recado sempre esteve presente aqui no Minuto Indie e não é dado à toa. O boom do streaming parece ter tomado conta de uma geração que se apega aos grandes nomes do mainstream e se divide entre a acomodação de curtir um som apenas em casa ou o glamour de comparecer a grandes festivais como o Lollapalooza.

E por debaixo das propagandas incansáveis do novo álbum do Drake ou da ansiedade anual em saber o line-up dos próximos festivais de renome, por onde anda a parte submersa do iceberg no mundo da música? O rock morreu, as casas fecharam. Como eu queria ter frequentado as boates de disco dos anos 70, ter sido uma club kid nos anos 80. Ou curtir as primeiras festas de hip hop no Bronx, os shows de punk nas garagens, os cabelos esvoaçados dos vocalistas de bandas de rock marcando toda a geração da década de 90.

Roda de break em uma das primeiras festas de hip hop no Bronx, anos 80. Foto: The New York Post.

“I’m a emo kid e 2000 é só o que eu tenho”, você pode chegar a dizer se tiver idade suficiente – ou insuficiente – para se ver inserido na geração do streaming. E o que tenho a te dizer é: Assista a shows! Vá a festivais, veja suas bandas preferidas, conheça novas bandas. Fortaleça a cena local. Ela está mais viva do que parece e basta procurar os cantos (in)certos da sinergia noturna na sua cidade que encontrará música, performance e experiências inigualáveis.

O rock não morreu. As casas não fecharam. Você pode reviver a cena ao longo das décadas, mas em que ano estamos? Onde mesmo você mora? Quem faz música por aí? As bandas independentes que se alimentam da movimentação underground continuam ocupando os espaços públicos e privados de suas cidades com um objetivo claro: fazer música e apresentar seu trabalho para a galera.

Praticamente toda banda começou assim. Seja em cenários longínquos como a pacata cidade britânica de Sheffield onde brotou a querida Arctic Monkeys, seja aqui mesmo em terras brasileiras, onde vemos o indie nacional e a cena psicodélica fazendo sucesso com as melhores bandas de Goiânia, como Carne Doce e Boogarins.

Arctic Monkeys em uma das suas primeiras apresentações em Sheffield, 2003. Foto: YouTube.

Bom, a redatora que vos fala é de Belo Horizonte, cidade mineira que parece esquecida nas famosas turnês de artistas internacionais e mais ainda pela abrangência de grandes festivais. Mas o que muita gente esquece é que na frase “Se Minas não tem mar, eu vou pro bar”, nesse bar, sempre tem música. No bar, na praça, no viaduto, nas casas noturnas, Belo Horizonte é uma cidade nutrida musicalmente pelos seus grupos, coletivos e selos de artistas independentes de todos os gêneros e com as mais variadas estéticas.

No último sábado (14), a Casa do Jornalista, localizada em BH, recebeu três desses artistas. O melhor do hip-hop foi apresentado por PESSA e o instrumental marcante aliado ao trip-hop ficaram por conta da Thought Crimes, ao lado da discotecagem de Kasu, e de Mafra, com a primeira apresentação do EP Erastes (2017). Os três apresentaram o que considero uma das performances mais interessantes já vistas ao vivo.

Apesar de conhecê-los de outras esquinas de BH, os shows não me soaram intimistas e metódicos. O que eu vi no palco foram artistas, trajando suas expressões, suas projeções e gritos em apresentações que marcaram pela energia, estética, envolvimento e, principalmente, pela esfera de um show pequeno num lugar pequeno com a potência de travar o mundo.

Para entender melhor a cena local é necessário conhecer quem a constrói. Por isso, convidamos as estrelas da noite para bater um papo com o Minuto Indie e falar sobre as apresentações e seus futuros projetos.

A Casa do Jornalista estava começando a encher. Cervejas, fumódromo lotado e playlists tomadas de trap para animar a galera, que por sinal estava bem estilosa. Mas tudo começou mesmo com o show de PESSA. Felipe Pessanha é um artista completo: desenha, escreve, compõe, produz e vem se envolvendo com o núcleo artístico de BH há um tempo. Começamos nosso papo com ele, que apresentou um set de rap recheado de agressividade vocal e um flow provocativo que convidou a plateia a iniciar o mosh.

Felipe Pessanha, o PESSA. Foto: Bruno Queiroz.

 

MI – Primeiramente, o Minuto Indie gostaria de parabenizá-lo pela apresentação, foi um show incrível. Mas vamos lá: Essa é uma pergunta difícil para todos os artistas, mas como você se define musicalmente?

PESSA: Muito obrigado pela oportunidade em primeiro lugar. Eu sou um artista, eu desenho, eu escrevo, não é só com música o meu compromisso e, principalmente, não é só com o rap, é com a arte. Eu não gosto de me limitar, mas atualmente o que eu tenho feito é rap, porque eu gosto muito de rap. Apesar do meu compromisso ser com a arte, a minha primeira paixão foi o rap. Mas tenho outras influências na minha música, sempre escutei muito hardcore, metal e eu tento misturar estética e temática, timbres desse lado mais cru da música. Tento trazer isso pro rap e trap moderno, não que ele já não seja cru e agressivo o suficiente por si só, eu só tento dar uma abordagem que talvez seja mais clássica em outros gêneros.

MI – Você fez parte da TUMOR, coletivo de experiências estéticas e musicais de Belo Horizonte, e já havia se apresentado algumas vezes antes. Como foi abrir a casa com a Thought Crimes?

PESSA: Eu fui uma das pessoas que fundaram a TUMOR junto ao Daniel Junqueira. Era só a gente e de primeira nem fazíamos música. Ela veio depois, e hoje em dia não estamos mais trabalhando juntos, então acabou dando uma parada. A Thought Crimes já fez parte da Tumor, eu já havia trabalhado com a Vivienn nessa parada de música. Já tínhamos feito música e show juntos antes. Sou amigo dela há muito tempo, temos uma amizade que começou por causa de música, a gente ouvia muita coisa em comum e aí teve uma interseção de sons que a gente gosta muito e que influenciam tanto o meu trabalho quanto o dela. Isso é muito maneiro porque a gente faz músicas de gêneros diferentes, mas por causa de um background similar a gente divide algumas influências. Foi muito bom tocar com ela, como já havia sido nas outras vezes, a energia da galera é semelhante. Acho que vai ser sempre uma galera parecida que vai gostar do meu som e do som dela, e o show nesse sentido foi massa porque foi uma espécie de despedida pra ela, que vai mudar, e comemoração do meu aniversário que foi dois dias antes do show, então tinha muitos amigos, uma galera maneira.

MI – Na apresentação, o público pôde conferir a energia que o PESSA agrega como artista nos palcos. A plateia iniciou o mosh automaticamente quando você começou a cantar.  No processo de produção musical e no show em si, o que você deseja passar para a galera?

PESSA: Eu tento ser sincero sempre. Eu acho isso importante pra mim porque o meu processo de fazer música vem do entendimento de mim mesmo, das situações que eu passei, minhas paranoias, dificuldades, tudo isso, e obviamente trouxe muito do que tenho de bom também. Tudo isso passa por um funil e aí eu tento transmitir isso de uma forma que seja sincera e compreensível, mas que também passa por uma estética, sabe, que passa por um filtro um pouco onírico que eu pego emprestado do hardcore, que é aquela coisa pesada, escura, pesadelo, tortura. Eu pego todas essas minhas experiências que são reais e passo por esse filtro dessa estética negativa que marca muito esse nosso capitalismo tardio. Eu tento ser sincero ao mesmo tempo que passo pela estética do sofrimento e acho que funciona legal, dá uma energia maneira e as pessoas gostam de extravasar e moshar, e isso é o que quero também, dar essa chance de extravasar.

PESSA ainda contou para o Minuto Indie que está aproveitando algumas peças de seus antigos trabalhos em novos projetos, sempre trabalhando com seus amigos, como a Vivienn e o Mafra, nossos próximos entrevistados.

PESSA ao vivo na Casa do Jornalista. Foto: Gabriela Fausto.

Vivienn Carvalho é a produtora, compositora e vocalista que assina a Thought Crimes. A banda que mescla o industrial e o trip-hop lançou seu primeiro e famoso EP Erastes em 2017, seguido de singles como “Virus” (2017) e “Burning” (2018). Ela vem trabalhando em projetos futuros cuja palhinha pudemos obter no show com a apresentação de músicas inéditas, planejadas para a composição de seus próximos materiais.

Vivienn Carvalho, criadora da Thought Crimes. Foto: Bruno Queiroz

MI- Já sabemos que a Thought Crimes tem as marcas do industrial e do trip-hop em sua produção musical. É possível apontar algumas referências previsíveis, mas você conseguiu mesclar tudo de um jeito muito seu. Por falar nelas, quais você aponta como suas principais referências e como elas influenciaram seu trabalho?

Thought Crimes: Eu sempre gostei conceitualmente, em termos de ambiência e produção, de me mirar no Nine Inch Nails. Mas uma coisa que, eu não vou falar que faltou no NIN, porque nunca foi o objetivo deles, mas uma coisa que pra mim faltaria dentro da música se eu tentasse fazer alguma coisa seria batida, e pra isso eu me miro tanto no trip-hop e um pouquinho mais em termos de timbres, baixo, sabe, coisas que dão um pouco mais de groove pra música do que o industrial geralmente dá. O industrial tende a ser um gênero extremamente metódico, repetitivo, meio mecânico, não tem muito elemento humano. E quando a gente trabalha com algumas coisas mais groove do trip-hop, tipo quando você pega uma música do Massive Attack ou do Portishead, dá pra perceber que tem muito swing, que é uma coisa meio beat, que eles pegaram do hip hop de início. Então pegar essas duas coisas e tentar juntá-las faz com que o trip-hop fique mais agressivo e o industrial um pouco mais humano. Esse é o meio termo que eu tentei me mirar em, pra mim dá um gosto, um sabor interessante pra música. 

MI – Na apresentação de sábado, na Casa do Jornalista, o público presenciou a experiência de ver um artista por trás de um telão, com a projeção visual de cenas de filmes e uma estética analógica de VHS, erros de codificação, glitch, discrepâncias digitais, que criou uma esfera inovadora em termos de apresentação de artistas independentes em BH. De onde veio a ideia de fazer esse conceito? 

Thought Crimes: Quando você tende a ir a shows independentes, tem aquela atmosfera interessante pela filantropia de você estar indo ver alguém que não tem um orçamento corporativo grande, aquele clima descolado de pessoas em um ambiente pequeno vendo uma banda que ninguém conhece. Começa o show e tem muita hype, mas assim, vamos admitir, na quarta ou quinta música você já não tá acompanhando muito bem o show, tá todo mundo pedindo cerveja, fazendo fila pra ir ao banheiro, saindo pra fumar no fumódromo e você tá encarando um desconhecido tocando um monte de música que você não conhece. Eu detestaria que um show meu fosse percebido assim, sabe? Eu não falo isso pra meter pau na cena independente, mas tenho que colocar algumas restrições, porque ser um músico independente não é suficiente para ser um músico independente. Você não pode se apoiar nisso, no discurso de apoio à cena, e esperar que isso sustente todo o seu público a se interessar por você, você actually tem que ser um músico interessante. Não tem como fugir de ser um músico interessante se você quer fazer música independente. Então eu não gostaria de fazer um show em que as pessoas começassem a mexer no celular na terceira música, eu gostaria que elas prestassem atenção no show de início a fim. Eu queria que elas sentissem que gastaram o dinheiro com o show e foram e viram o show. Então pra mim, a experiência audiovisual é interessante pra prender a atenção das pessoas, porque além de ser uma coisa pouco explorada, estimula todos os aspectos da apresentação. Você não está apenas ouvindo, você está vendo e prestando atenção. Não é só uma música atrás da outra, e sim uma coisa bem amarrada na qual as músicas estão conversando uma com a outra e você foi de um lugar A a um lugar B. E isso dá mais sentido pro show, isso faz com que o ato de estar lá seja uma coisa mais gratificante pro público.

Thought Crimes ao vivo na Casa do Jornalista. Foto: Lillie Lima.

MI- A setlist tinha músicas do EP Erastes, lançando em 2017, mas tinha também singles lançados posteriormente e músicas de projetos ainda não lançados. Por que você escolheu essa setlist mesmo com algumas pessoas ainda não conhecendo essas músicas? 

Thought Crimes: Eu gosto muito do Erastes, mas a essa altura do campeonato eu acho que, por mais que eu não tenha lançado muito material fora dele, eu já crio uma impaciência com a ideia da Thought Crimes ser associada ao Erastes e ponto. Eu não quero ser o projeto que lançou o EP Erastes, então eu acho que esse show foi uma oportunidade de reforçar para o público que eu não parei por aí, eu não me acomodei com esse EP, não achem que eu não fiz mais nada depois dele, porque eu fiz. Aqui tá o que eu apresentei, teve o single “Virus, e teve duas músicas que vão integrar próximos trabalhos, “Who’s Afraid of the Big Bad Wolf” e “Wired. E o fato de que apenas duas músicas da setlist eram do Erastes foi uma forma de lembrar as pessoas que há um catálogo além dele. Embora eu definitivamente tenha um agradecimento especial a ele, dificilmente essa é a forma que eu gostaria de me definir agora que está quase fazendo um ano de seu lançamento.

MI – Falando em Erastes, essa foi a música que realmente conseguiu tocar a maior parte das pessoas no show e acho que é uma das preferidas de muita gente porque consegue reunir exatamente a sua proposta e por isso criou uma energia muito forte na apresentação. Como se deu a parceria com o Mafra tanto no processo de criação da música quanto no show? A música Erastes ainda é pra você o que é pra gente? 

Thought Crimes: Eu acho que ela é uma boa síntese. Tudo sobre a música Erastes foi uma coincidência muito feliz. Eu tinha um instrumental esboçado, mas não era muito profundo, então eu levei pra casa de um amigo meu, o Diego, e junto com o Mafra a gente fez a música inteira em uma tarde. À medida que eu ia fazendo a música, o produto final era bem claro na minha cabeça e era tangível. Geralmente eu tomo decisões inusitadas que tornam a música uma coisa muito diferente do que eu achava que ia ficar. Mas essa não. Toda a química na tarde em que tava eu e o Mafra era certa e é bem sintetizada em termos de letra e performance vocal, e em termos de produção ela não é uma música que precisa de muito pra poder se provar. E isso é uma coisa que eu particularmente sou muito agradecida a ela por isso. Não tem como não apreciar um momento desses, porque a química só rolou com tamanha facilidade que eu não posso ignorar o fato de que a música Erastes é a introdutória à Thought Crimes, e eu não acho isso ruim. É uma ótima forma de introduzir o projeto. Eu gosto muito dessa música.

Mafra, que colaborou com a Thought Crimes na faixa, também deu uma palavrinha sobre a música “Erastes”.

MI – Você colaborou com a Thought Crimes no sucesso “Erastes”, tanto na composição, como na produção e, por fim, na apresentação incrível. O que o processo de fazer essa música representou pra você? Como foi trabalhar com a Thought Crimes?

Mafra: Erastes é com certeza o pedaço de obra musical que eu tenho mais orgulho de ter feito, até porque foi o que me deu vontade de ser um músico. O processo de criação que veio por parte da Thought Crimes foi incrível e mais incrível ainda foi a Vivienn ter cedido um espaço tão importante na obra dela pra um amigo, que, na verdade, nunca tinha feito algo parecido. Meu envolvimento com o rap e com música sempre foi de uma forma muito analítica e observante. Participar de um processo artístico é completamente diferente, e inclusive me ajudou muito nos meus trabalhos jornalísticos. O processo aconteceu mais ou menos com a Vivienn querendo que o meu verso no Erastes fosse uma síntese das ideias que teriam ali no decorrer do EP. Foi meio que uma encomenda de verso. Ela me pediu pra escrever e eu já tinha umas partes dele meio prontas que era pra ser de outra colaboração. No mesmo dia a gente foi pra casa do Diego e eu sentei pra escrever em uma beat que eu tinha acabado de conhecer. Escrevemos, gravamos e soltamos no mesmo dia no Soundcloud, o que foi o mais legal. Esse verso é muito importante pra mim, e mesmo partindo de um sentimento verdadeiro, era uma projeção meio fictícia, e a cada mês que passou ali depois da produção, ele foi ficando mais vívido e verdadeiro, sabe. Foi quase uma profecia pessoal e com certeza a coisa mais importante que eu fiz. É sempre uma honra fazer parte de trabalhos tão potentes, principalmente com pessoas que você ama, e Thought Crimes é isso pra mim, além de uma grande música, é uma grande amiga.

Thought Crimes e Mafra apresentando o sucesso “Erastes” ao vivo, na Casa do Jornalista.

Voltando a falar com a criadora da Thought Crimes, ficamos sabendo que Vivienn Carvalho está de malas prontas para Londres, onde cursará Produção Musical na Academy of Contemporary Music – ACM.

MI – Você está prestes a deixar o Brasil, mas não a deixar de fazer música, como já afirmou que vem trabalhando em novos projetos. Como a mudança para Londres e o estudo e trabalho mais próximo à música vai interferir no que estar por vir musicalmente para a Thought Crimes? Onde você se projeta no futuro?

Thought Crimes: Não é uma forma muito saudável de se pensar sobre música, mas eu penso que se eu estou tendo bloqueios criativos provavelmente é algo a ver com recursos. O meu primeiro instinto quando eu travo em compor é procurar um sintetizador novo, ou samples novos, ou um instrumento novo para estudar, ou tentar compor de forma X ou Y e tipo só mudar a forma como eu começo a compor a música, eu só quero virar a mesa e procurar outra coisa. Então quando penso em ir pra Londres a priori por mais que esteja entrando em uma faculdade e começando a trabalhar perto disso, criativamente eu me sinto indo em busca de recurso. A ideia é finalizar o álbum material que já tenho pronto, mas depois disso eu to tentando me limitar a não ter planos e parâmetros para a Thought Crimes, porque é bem possível que absolutamente toda a minha música mude completamente. Como Thought Crimes eu não estou indo para estudar ou só mudar de país, estou indo atrás de uma forma de fazer mais música. Sobre o futuro, é bom sonhar, mas tenho que manter um pouco de realismo, o que seria estudar e trabalhar com sound design. Idealmente seria um contrato com uma gravadora e colaborações com artistas eletrônicos que eu gosto. Prefiro falar isso do que falar que tenho o sonho de fazer uma turnê mundial e emplacar Billboard, esse não é o objetivo. O objetivo é fazer conexões criativas e fazer música.

MI – Estamos no Minuto Indie, então eu não podia deixar de falar disso. Tem alguma coisa do indie que você carrega para os seus trabalhos? Como o indie contribuiu para você chegar até aqui? 

Thought Crimes: O que as pessoas tendem a esquecer é que o rock alternativo e o indie rock desde os anos 80 passaram por todas suas metamorfoses até chegar à cena atual. As bilhões de vertentes existentes do indie apresentam uma paleta de emoções específicas. Quando você escuta uma música do The National ou do Interpol você sente alguns tipos de tristeza e apatia bem específicos. Mas uma música de festa indie também é bem específica, e se você volta mais pro início e escuta rock alternativo da época de Sonic Youth e Pixies, percebe que havia um desleixo específico, e essa é uma coisa que eu não tendo a inserir propositalmente na minha música, mas as formas de canalizar as emoções e o eu lírico nas letras, barulho e produção, é algo que ficou tão inerente a mim de tanto que ouvi todas essas vertentes que virou um parâmetro básico na hora de ouvir e fazer música. Nuances na forma de exprimir algumas emoções, como solidão e revolta, e sabe, desleixo com o mundo à sua volta, é uma coisa que eu peguei crescendo, ouvindo bandas e escrevendo letras, e se apresenta na minha música querendo ou não, uma coisa bem involuntária, mas que eu reconheço que devo ao indie.

MI – Seu trabalho tem muita coragem, porque você começou a fazer tudo sozinha, tanto as letras como a produção. Por fim, o que você tem a dizer para quem está querendo muito começar a fazer música, mas ainda não tem essa coragem?

Thought Crimes: Cada caso é único, mas outra coisa que puxei do indie, de um ponto de vista artístico e não do mercado da música, é: se você fizer música pensando no que os outros vão pensar, sua música vai ficar inevitavelmente ruim pra você. É possível que você faça uma música estudando meticulosamente o que dá certo no pop e seus amigos, parentes e colegas de trabalho vão gostar, mas você não vai gostar tanto e não vai se sentir tão bem com o que tá fazendo, o que te torna meio amargurado. Qualquer coisa que eu posso dizer pra quem tá começando a fazer música é: não se sinta na pressa de se mostrar pros outros se você ainda não quer, só começa da premissa de que vai fazer música que gostaria de ouvir. Senta com o que você tem à sua disposição, pode ser um violão, o gravador do seu celular, o seu computador com um programa como o Ableton, ou a casa de um amigo com um estúdio, senta com o que você conseguir e só faz o tipo de música que você gostaria de ouvir. O único medidor de qualidade que você precisa a priori e o que vai realmente sempre funcionar pra você, independente de contrato ou fãs, é o seu ouvido, então só faz o que você quer ouvir e provavelmente você vai se orgulhar.

Thought Crimes ao vivo. Foto: Lillie Lima.

A última música do show foi inevitavelmente a tão falada “Erastes”. E para completar a entrevista, batemos um papo com Rafael Mafra. Estudante de jornalismo, colunista na V!$H Midia e entusiasta do rap local e nacional, já esteve por aqui no Minuto Indie em algumas colaborações, mas agora o papel foi invertido. Hoje queremos conhecer o artista Mafra e para isso fizemos algumas perguntas.

MI – Primeiramente, o Minuto Indie gostaria de parabenizá-lo duplamente pela apresentação incrível, já que seu aniversário foi no dia do show. Mas a gente quer saber mais sobre a performance. Na hora de apresentar, vimos um pouco do que o artista Mafra tem a oferecer no palco. Você pretende trabalhar em algo próprio e aplicar toda essa energia nos próximos projetos e shows?

Mafra: O artista Mafra no palco é uma questão importante, porque eu cantei só duas vezes na minha vida. A primeira foi no Mama Cadela, outro espaço de BH, e também foi a Erastes e a Incubus. Essa foi uma apresentação em que eu estava mais despreocupado. No show de sábado fiquei mais nervoso, porque uma coisa que eu sempre quis fazer com a Erastes era essa experiência mais visceral e gritada. Principalmente por causa do fato da gente ter gravado ela em um dia praticamente. Na época eu não sabia o que fazer diante de um microfone de estúdio, não sabia gravar, falava baixinho e havia muitos ruídos. Eu queria que fosse uma performance menos sussurrada do que foi no EP e eu acho que consegui fazer isso no show. A questão é que o Kasu e a Vivienn tiveram uma genialidade naquela projeção que com certeza foi surpreendente pra quem estava assistindo, porém eu não vi a reação de fato do público. Eu não olhei no olho de ninguém, então a reação que eu tenho na cabeça são as pessoas contando das reações das outras pessoas. Eu fiquei feliz pelo show. Por mais que sejam apenas duas performances, subir no palco é uma das coisas que eu mais gosto de fazer, é uma experiência emocionalmente gratificante e se eu tiver material, criatividade, amigos como esses pra me ajudar a estar lá, eu vou estar apresentando sempre da melhor forma possível e gritando muito, porque gritar as músicas que você escreveu chorando é incrível.

MI – O público pôde conferir uma palhinha de “Incubus/Succubus”, outra colaboração da Thought Crimes com a TUMOR que você fez parte. A improvisação marcou o show e deu ainda mais emoção pra galera. O que te motivou a apresentar essa música naquele momento?

Mafra: Essa parte da Incubus foi o seguinte, eu tinha programado uma parte da apresentação que eu não tinha falado com a Vivienn, que foi aquela parte de Erastes que eu continuo depois que meu verso acaba: “A culpa era sua / A culpa é sua / A culpa é minha”. E na verdade eu não sabia se a Incubus seria tocada mesmo porque ela é uma produção da Thought Crimes e conta com quatro participações, incluindo a minha. Só que eu não sabia ao certo se ela seria tocada e eu descobri isso no final do show, quando a Vivienn falou que era hora de apresentar a última música e eu pensei “Puts, a última não vai ser Erastes”. Não sei se foi egoísta da minha parte, mas quando a gente gravou Incubus, que é uma música muito boa, eu coloquei sentimentos muito pessoais não só como metáfora. Acho que visceralmente citei nomes importantes pra mim ali, e eu fiz uma imagética de coisas na minha vida que naquela época eram necessárias, coisas que eu não falaria hoje em dia, mas que naquele momento era muito forte, então é um verso muito importante, assim como o verso de Erastes. Quando acabou meu verso em Erastes e a Vivienn finalizou a música, só me deu na telha tipo, velho, eu não vou terminar o show assim. E foi importante porque nesse verso de Incubus eu falo sobre o meu avô, que foi uma das pessoas mais importantes da minha vida e eu chamei meu pai pra ir nesse show, então todo o momento pareceu uma oportunidade incrível de cantar algo que significou e ainda significa tanto pra mim e pra ele.

MI – Por fim, conta um pouco pra gente sobre o que vem por aí do Mafra como artista.

Mafra: O Mafra como artista só existe por causa desses amigos que me motivaram tanto e me colocaram em projetos tão importantes deles. Acho que finalmente vou fazer alguma coisa com meu nome. Eu estou terminando um álbum que já mudou de nome várias vezes, e eu realmente não sei se ele vai ser algo que a galera vai ouvir ou pagar pra ir num show, mas é uma coisa importante pra mim, sabe? Esses últimos dois anos foram momentos muito marcantes e eu queria deixá-los registrados. Vai ter inclusive uma música produzida pela Thought Crimes com uma participação na guitarra do Gabras, que é um grande guitarrista e músico, em um estilo industrial que os fãs da Thought Crimes gostam muito. Vem aí outro fusion meio Erastes e vai ser incrível.

Mafra apresentando “Erastes” ao vivo no Mama Cadela, BH. Foto: Artur Lahoz.

“A CULPA ERA SUA. A CULPA É SUA. A CULPA É MINHA”. Todos que estavam presentes na Casa do Jornalista ficaram com esses versos grudados na memória enquanto a apresentação chegava ao fim. E foi assim, com os versos gritantes de Mafra, que a noite se encerrou embalada pelo êxtase de uma série de apresentações contagiantes.

O show de PESSA, Thought Crimes e Mafra mostraram que a cena independente ecoa estridente nas casas e espaços de Belo Horizonte. O mesmo acontece em qualquer outra cidade com a movimentação artística underground ao redor do mundo. Apresentações como essa marcam a trajetória de artistas que buscam mais que reconhecimento, mas a oportunidade de mostrar trabalhos incrivelmente construídos em uma cena que parece amargurada, mas avança cada vez mais forte em um mix de experimentações musicais e estéticas que triunfam vorazmente em um meio tomado pelo clichê do mainstream.

Assista a shows! Vá a festivais, veja suas bandas preferidas, conheça novas bandas. Fortaleça a cena local. Descubra sua cidade, ouça o que ela tem a oferecer. A música começa nas pessoas e elas podem estar bem ao seu lado. Busque a sua cena e se surpreenda, há muito para descobrir.

Acompanhe os artistas entrevistados:

PESSA:

Thought Crimes: 

Mafra: 

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