Entrevista + faixa-a-faixa: Nana – “CMG-NGM-PDE”

Nana acaba de lançar o disco “CMG-NGM-PDE”. Um registro que versa por synths simpáticos e carrega em sua essência o indie.

A cantora e compositora Nana está divulgando seu segundo disco, o “CMG-NGM-PDE” (Comigo Ninguém Pode). O álbum está uma belezinha, desses que vale a pena (mesmo) fazer uma audição atenciosa. Se você for o tipo de pessoa que curte um som mais astral.

Indo da bossa-nova as marchinhas, passando pelo samba e culminando tudo num grande e saudoso álbum com estética indie rock.

Conversamos com Nana sobre esse curioso disco, ela aproveita o espaço e te conta mais sobre cada uma das faixas.

MI – Porque escrever o nome do disco todo encurtado?

Nana: Foi uma escolha que aconteceu por acaso: um dia criei uma playlist com algumas referências para o disco e dei o nome CMGNGMPDE. Não pensei muito mais nisso, até o dia em que percebi o quanto a internet foi importante nesse meu processo de imigrante. É muito estranho perceber que o contato com seu próprio país se dá unicamente através de telas e computadores, é tudo muito distante. Temos essa ilusão da proximidade, mas a verdade é que estar 5 horas a frente da sua terra afeta consideravelmente a sua relação com o que ficou lá. Por isso, achei o nome em internetês muito apropriado. Minha comigo-ninguém-pode existe virtualmente.

MI – Vi que o álbum tem participações de Lulina e Felipe S., do Mombojó. Como foi contar com a participação deles? Qual foi a influência que lhe trouxeram?

Nana: Como sempre, é maravilhoso ter colaboradores num disco. No caso da Lulina e do Felipe S., foi uma honra ainda maior, porque desde muito tempo conheço e admiro o trabalho deles. Minha intenção era trazê-los pro meu mundo, minha sonoridade, mas também trazer um pouco do universo de cada um pra minha música. Acho que tanto “Caoutchouc” quanto “Bomba” estão em sintonia com cada um deles; como compositora, poder compor uma música e ter o intérprete ideal é muito gratificante.

MI – É nítido e intrigante sua relação com os locais: Bahia, Rio de Janeiro e Berlim. Fale um pouco sobre como é viver essas culturas ao mesmo tempo.

Nana: Nasci na Bahia, moro em Berlim e amo o Rio. Eu tenho uma relação forte com o espaço, me comove a forma como nos relacionamos com as cidades, o quanto atrelamos sentimentos, sensações, fracassos, a um determinado lugar. A Bahia sempre simbolizará pra mim o início de tudo, num nível pessoal mesmo. Sempre vivi próximo ao litoral, mas me considero uma pessoa do interior, minha família veio do sertão e eu sinto essa energia em mim que não é como a de Salvador. Às vezes me identifico com certa dureza e diligência que sei que vem dos meus avós e da minha infância próxima a eles. No Rio, encontro a poesia e as paisagens que achava que só existia em minha imaginação. Sempre que chego ao Rio de Janeiro, sou tomada por uma entorpecência, que vem do ar, das cores, de certa decadência. Quando mudei pra Berlim, não teve isso. Achava tudo feio, mas gostava. Muita gente me dizia que nada em Berlim dava certo, que a vida aqui era difícil de conciliar – acabou que pra mim foi o contrário. Sinto que na Bahia e no Rio seja parecido: cada lugar tem suas dificuldades e algumas pessoas se saem melhor nelas que outras.

MI – Como você definiria seu som para uma pessoa que nunca te ouviu?

Nana: Indie pop brasileiro com umas pitadas de jazz e computadores.

MI – Quais bandas você tem escutado atualmente?

Nana: Ultimamente, tenho ouvido muita trilha sonora, principalmente italiana, música japonesa, João Donato, Felipe S. e Tim Bernardes.

Faixa a Faixa: Nana – “CMG-NGM-PDE”

Convidamos a Nana para falar também sobre cada uma das músicas do disco “CMG-NGM-PDE”. Você confere agora, com exclusividade:

01 – CMG-NGM-PDE: É tipo minha música de super-herói. É sobre ser mulher e ver sua história na história de todas as mulheres, se amar com os seus defeitos e erros, e se proteger com todas as forças. Ela é um grito contra esse clichê de ser sempre visto sob um só ângulo, quando na verdade somos todos muito mais complexos.

02 – Copacabana: Fim de tarde em Copacabana. o sol brilha dourado, entre copos de mate, selfies e mergulhos, eu sorrio porque o dia chega ao fim, e na manhã seguinte o mar já vai ser outro.

03 – Menino Carioca: Toda música como “Copacabana” precisa de uma continuação como “Menino Carioca”. É sobre se descobrir muito mais feliz e completa sem a pessoa que te fazia mal culpando o amor. Infelizmente, tudo muito típico.

04 – Gato é Crime, Denuncie: Essa é uma das minhas preferidas. É sobre amores no tempo da internet, sobre rejeição e vingança, mas tudo muito inocente, porque dura tão pouco. Lembro que cheguei a ler discussões sobre gato elétrico em fóruns na internet (todos muito divertidos) para escrever algumas das partes.

05 – Caoutchouc, com participação de Felipe S.: Um dia lendo um livro sobre a Amazônia, me deparei com um trecho de La Condamine sobre a seringueira, que era chamada pelos Maias de “cahutchu”, a árvore que chora. Era o nome perfeito pra essa música que eu já tinha escrito sobre minha relação com a água, que é muito forte, e sobre minha tendência a chorar por qualquer coisa ser um reflexo disso. Desde a primeira vez que toquei no violão (ao invés do piano), senti que seria a música ideal para o Felipe S. cantar.

Capa do disco “CMG-NGM-PDE” – Nana.

06 – Independência ou Morte: Berlim, sala-de-estar. Um sonho muito breve sobre palmeiras, tamanduás, bromélias. Ao longe, uma flauta traz melodias de uma terra que não existe senão em meus cochilos.

07 – Rua Paysandu: A primeira vez que passei pela Rua Paissandu, me apaixonei. Era muito mágico pra não virar música. Rapidamente, escrevi um refrão pra ela. Algum tempo depois, na época do golpe, compus o resto. A imagem que eu queria passar era a de um sistema em putrefação, que usa seus últimos recursos pra manter as aparências.​

08 Dieffenbachia II: Essa foi a primeira música escrita especialmente para o disco, e não à toa se chama Dieffenbachia, que é o nome científico da comigo-ninguém-pode. Lembro que na época eu morava num quartinho de 9 metros quadrados e que as faxinas demoravam um dia inteiro, porque eu constantemente parava a limpeza para escrever e tocar.

09 – Bomba, com participação de Lulina: Em janeiro, quando estava gravando em casa as demos do disco, entre uma música e outra gravei uma demo de “Bomba”. Foi muito rápido, a letra, os arranjos, os timbres, tudo se formou em questão de horas. Mas ainda não tinha certeza se queria gravá-la para o disco. Quando mostrei ao Haba, resolvemos: “essa é a música perfeita pra Lulina!”. E foi!

10 – W.O.: A música mais antiga do disco, do início de 2015, mas que levou meses para eu definir a letra. A ideia de falar sobre futebol surgiu de uma ligação no Skype. O som estava péssimo, mas eu ouvia bem alto uma voz narrando um jogo do Flamengo e alguém tocando violão ao fundo.

Confira outros faixa-a-faixa: ABC Love, Calvin Voichicoski e A Olívia.

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