Entrevista + faixa-a-faixa: Macaco Bong – “Deixa Quieto”

Quinto disco de banda instrumental, Macaco Bong, é uma releitura do clássico “Nevermind”, do Nirvana.

A banda de rock instrumental Macaco Bong surgiu em 2004, criada pelo guitarrista,compositor e produtor Bruno Kayapy. A banda já passou por diversas mudanças de formação, de quarteto para power-trio e agora, conforme recente anuncio no perfil pessoal de Kayapy no Facebook, a banda volta ao formato de quarteto.

O primeiro disco veio em 2008, “Artista Igual a Pedreiro”, com esta obra a banda ganhou reconhecimento e segui lançando “Verdão e Verdinho” (EP – 2011), “This is Rolê” (2012) “Macumba Afrocimética” (2015) “Macaco Bong” (2016).

Nos últimos dias o Macaco Bong lançou seu quinto disco, “Deixa Quieto” (Sinewave Label) é um álbum de livre interpretação instrumental das músicas de “Nevermind”, o disco que fez o grunge ser um fenômeno mundial e transformou Kurt Cobain e co. em ídolos de uma geração.

Conversamos com Bruno Kayapy, o mestre de obras a frente de mais uma construção interessante e bem acabada do Macaco Bong, como de costume ele também comenta a criação de todas as músicas do disco em um faixa-a-faixa exclusivo. Confira:

Macaco Bong em nova formação. Foto de: @walbenny

MI – Como, onde, quando veio essa vontade de gravar um disco interpretando um álbum clássico do Nirvana?

Bruno Kayapy: Começou há alguns anos, quando a Rolling Stone convidou a banda pra tocar em uma das edições da festa de aniversário da revista, lá no Bourbon Street em São Paulo (SP) fechando a noite. A abertura do show foi da Mallu Magalhães e o Marcelo Camello fazendo um show acústico. A ideia da galera da RS (não sei exatamente de quem partiu também essa idéia) era que a gente fizesse releituras de bandas em formato power trio em repertório exclusivo pra festa.

Fiquei na época super empolgado com a ideia de fazer releituras, e acabamos fazendo versões de releitura do Paralamas do Sucesso, Morphine, Nirvana, The Police e algumas outras coisas que também não me lembro direito agora. De fato a versão que mais chamou, tanto a nossa atenção quanto a do público e da crítica foi a versão que fizemos de “Drain You” junto com “Stay Away”, um medley emendando uma no rabo da outra como se fossem uma música só, isso caiu tão bem, era tão confortável pra gente em termos de gosto musical, era muito divertido também pra gente a forma de executar, então de fato rolou uma sinergia com essas releituras, é massa o Macaco tocando Nirvana!

Mas isso foi ficando de lado na época em meados de 2009 e acabei retomando isso agora em 2017. Em 2009 a gente colocou a versão medley de “Drain You”/”Stay Away” no repertório do show da banda por alguns anos até a saída do Ney Hugo (ex-baixista da primeira formação), tanto na primeira formação quanto na atual formação que já é a quinta formação do Macaco Bong, a vibe permanece impecável tanto tocando Macaco Bong quanto tocando o “Deixa Quieto” com Renato Pestana (batera), Daniel Hortides (bass) e agora vamos contar com mais um guitarrista na banda que não gravou no disco mas participou de todo o processo de composição e vai somar as guitarras comigo que é o grande Fabrício Pinho, um cara extremamente talentoso.

MI – Provavelmente o “Nevermind” é o disco mais executado/conhecido do Nirvana, foi complicado trazer vida nova para esse trabalho?

Bruno Kayapy: O que fiz foi mais adaptar muitas ideias que já tinha guardado no decorrer de anos em um HD externo, fiz uma repescagem ali, meio que uma seleção de várias ideias e depois as organizei. Eram ideias que seriam, de certa forma, utilizadas no Macaco Bong, mas não sou um cara apegado a riffs e na mesma intensidade que crio, é a mesma intensidade que jogo ideias na lixeira (ou guardo como arquivo em pastas), foi um trabalho longo, ainda este ano 2017 fizemos três versões de arranjos diferentes, chegamos a tocar em shows até definir esse formato que registramos no “Deixa Quieto” ao qual acredito ter conseguido chegar exatamente naquilo que queria, o resultado agradou a todos nós da banda por unanimidade.

Capa do clássico “Nevermind”, do Nirvana.

MI – Outra parada legal no “Deixa Quieto” é que vocês brincaram com os nomes das faixas. “Smiles Nike Tim Sprite”, “Com Easy ou Uber” e por ai vai. Como surgiu essa brisa?

Bruno Kayapy: Mantendo a tradição né? hahaha! O Macaco Bong na verdade sempre foi uma banda que, na hora de dar títulos para o nome das músicas, optou por ser irônico “comicamente” falando do que adotar uma mensagem do ponto de vista de serem uns caras sérios. Até porque somos pessoas bastante extrovertidas, rimos de nós mesmos, a gente se zoa sempre, é muito astral o nosso clima interno, e acho interessante esse contraste, você ouve Macaco Bong, o nosso som é introspectivo, mas quando você lê o nome das músicas é hilário.

De fato no “Deixa Quieto” você está ouvindo uma releitura, então é sim diferente das versões originais, então nada mais justo do que dar novos títulos. Vou revelar um segredo, o verdadeiro responsável pela criação do título das músicas do “Deixa Quieto” foi nosso grande amigo, que fala em portanholglês, chamado Google Translate.

MI – Ao vivo como se comportam as músicas? Vocês tentam seguir o que tá no disco ou acabam criando outras versões improvisadas?

Bruno Kayapy: No Macaco Bong não existe improviso! Todos os álbuns da banda são de cabo a rabo arranjados, inclusive os solos, nada é improvisado. É tudo arranjado e ensaiado, o que se ouve no disco se ouve ao vivo. Claro que para uma banda instrumental a execução ao vivo dá mais liberdade para improvisos, mas nunca foi o caso do Macaco Bong. Existe um rito das melodias, dos riffs e de cada ruído que se ouve. A gente não inventa moda. Somos do tipo de banda que ensaia até sangrar a ponta dos dedos, mas também todo mundo fica com a música na palma da mão, 100% seguros com suas linhas de execução.

Faixa-a-Faixa: Macaco Bong – “Deixa Quieto”

Convidamos o Bruno Kayapy para falar sobre os momentos de criação, piração, redescobrimento, significados de todas as faixas do “Deixa Queto”. Ele comenta faixa-a-faixa o disco “Deixa Quieto”.

1 – “Smiles Nike Tim Sprite”: Essa música teve dois arranjos, ambos com a mesma linha de harmonia e melodia que fiz pra ela, mudei os acordes da versão original em F-Bb-G#-C# (fá,si bemol, sol sustenido e dó sustenido) e modulei a harmonia para E-B-C-Eb (mi,si,dó e mi bemol) ambos com intervalos de terça menor. Ela permanece o tempo todo nessa harmonia, e vou deslizando a mão sobre o braço da guitarra fazendo a melodia principal da voz em uma linha oitavada. A primeira versão dela soava algo como aquele primeiro álbum do QOTSA, a segunda versão a gente decidiu desligar as distorções e deixar o som das guitarras limpa e faz mais Funk na linha do Comodores e achamos que o resultado ficou animal.

2 – “Móviaje”: O arranjo dessa versão foi uma ideia que já tinha composto em 2014 para um dos milhares projetos que tentei criar durante uma fase de transição bem conturbada para o Macaco Bong. Essa onda aí já nasceu pronta.

3 – “Nublum”: A gente não se resumiu a fazer a releitura do “Nevermind” preso somente nas coisas do Nirvana, procuramos trazer tudo quanto é tipo de referência para a releitura das músicas inspirando em bandas como Melvins, Black Flag, Sonic Youth, Mudhoney, Iggy Pop, Mutantes, Secos e Molhados, Caetano (por incrível que pareça) me inspirei em obras como o “Transa” do Caetano, mas em “Nublum” a nossa intenção foi soar o mais RATM possível. Sou muito fã de Rage Against the Machine.

4 – “Briza”: Uma coisa que trouxe para este trabalho foram as minhas influências no Bluegrass e Blues de raíz como Son House, Blind Willie Johnson e Skip James na linha do blues, na linha bluegrass trouxe Jerry Reed e Chet Atkins, mas no final das contas a ideia disso tudo misturado com Macaco Bong virou meio que a vibe de “Lizard Life” do ZZ Top, do álbum deles de 1994 chamado “Antenna”.

5 – “Loló”: A versão de “Polly”, por ser acústica era muito cautelosa para se mudada, então, ou muda completamente ou nem mexe, seria um pecado imperdoável destruir a beleza singular de “Polly”. Então mudei a harmonia, fiz outra coisa mais ZZ Top ainda. Sou tão fã de ZZ Top que nas horas de apuros como essa, fazer uma releitura de “Polly”, logo penso: “O que Billy Gibbons faria nessa situação?”.

6 – “Com Easy ou Uber”: Essa música também foi muito cautelosa. Quando comecei a gravar as pré-guias dela em meu estúdio, quando terminei era outra. Não sei explicar exatamente o que aconteceu com essa música, apenas fui direto naquilo que meu ouvido pedia e segui a minha intuição sem medo. Essa música é uma das minhas preferidas do álbum, rolou algo muito especial com ela durante todo o momento que trabalhei nela, coisas do tipo, naquela parte “And I swear that I don’t have a gun…”, por acaso esqueci de gravar essa parte, simplesmente esqueci que ela existia nessa música, logo a parte mais auge de “Come As You Are”.

E depois que entendi que “Não tenho arma”, o Kurt está justamente dizendo “Cara, sem regras, sem armas, seja como você é e está tudo certo”. Por isso coloquei o nome de “Com Easy ou Uber”, tipo, tanto faz qual usar, uma ironia ao real título “Venha Como Você É”, conforme nosso amigo autêntico, Google Translate, o melhor batizador de títulos de música da história. Cara, sinceramente, eliminar essa parte SALVOU essa música. Foi uma saga, mais que isso, “Com Easy ou Uber” é uma fuga musical.

Nirvana. Foto: Divulgação.

7 – “Lírio”: A primeira coisa que me veio na cabeça na hora de recriar uma versão para “Lithium” foi: “Como fugir dessa música tão grudenda, tão especial, singela e meiga?”. Mudar características de músicas como “Lithium”, que já nascem naturalmente com vários tons de delicadeza, é um risco muito grande. Então de todas as obras foi a que procurei não descaracterizar muita coisa, mantive a mesma tonalidade, os mesmo tons da música, tocando meio tom abaixo na minha guitarra Barítone Jaguar Bass VI ao qual utilizei pra gravar todo o álbum. A única coisa que fiz mesmo foi dar um ar, criar um clima mais “vintage” pra canção, uma vibe meio Sandy Bull flertado com a fase mais suja e podre dos, Hellacopters.

8 – “Drive-in You”: Nunca gravamos um hardcore! E recriar uma versão de “Drain You” me possibilitou isso. Referências? Bad Religion, Pennywise, Nofx, claro… principalmente, Garage Fuzz, Nitrominds, a minha ideia era soar como eles nessa faixa! Especialmente o hardcore brasileiro sempre foi uma referência pra mim através de outros ângulos, além da musicalidade.

9 – “Salão”: Algo me remeteu a “Black Marroca”, um single do Macaco Bong lançado em 2013, então o que fiz foi pegar um trecho da nossa música e recriar ela em cima de “Lounge Act”, achei o resultado bem interessante.

10 – “Território Piercing”: Também foi tirado de coisas do Macaco Bong e nem tanto do Nirvana. Se prestar bem atenção o riff do início lembra bastante a nossa música chamada “Carne Loca”, o que fiz foi readaptar tudo aquilo em uma nova estrutura tonal. “Território Piercing” é uma das minhas preferidas, ela soa exatamente do jeito como gostaria.

11 – “Longe de Tudo”: “Stay Away” é uma música que o Macaco Bong já havia feito outras versões, ainda na primeira formação da banda. Mas ainda reproduzindo a versão original do arranjo toda instrumental, você até encontra um vídeo da gente tocando a primeira versão da música na primeira formação em um show no Auditório do Ibirapuera. “Longe de Tudo”, foi simplesmente acontecendo.

12 – “Somente Whey”: Esse título é demais… bem engraçado, sem anabolizantes, somente whey! Gosto desse tipo de coisa non-sense, essa música achei que ficou linda! Tem essa onda do lá sustenido e mi maior que é uma onda bem grunge, bem Alice in Chains, melodia de voz maravilhosa do Kurt, e trouxe uma pegada bem Stoner e bem Blues, é tipo você realmente sentar em uma máquina de fazer peitoral na academia, botar 30kg de peso na barra e conseguir se exercitar na boa, sem peidar, tudo natural, sem tomar bomba, sem anabolizantes, o resultado demora mais, mas é mais natural quando se usa “Somente Whey”.

Confira outros faixa-a-faixa: ABC Love, Calvin Voichicoski e A Olívia.

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