‘Blonde’ ganha Certificado de Platina e fãs comentam importância da obra de Frank Ocean

O Minuto Indie convidou alguns fãs para falar sobre a importância de Blonde, o aclamado álbum de Frank Ocean que acaba de ganhar o status de platina

Sucessor da obra-prima Channel Orange (2012), o álbum Blonde ganhou oficialmente o Certificado de Platina pela Recording Industry Association of America – RIAA no dia 9 de julho, mas a notícia só espalhou quando um de seus produtores, Vegyn, compartilhou a informação em sua página no Twitter, no último dia 24.

O tão aguardado segundo disco de Frank Ocean foi lançado em agosto de 2016. Após uma espera ansiosa de quatro anos, os fãs sofreram uma quebra de expectativa quando o artista lançou o álbum visual Endless (2016, Boys Don’t Cry / Def Jam), que possuía faixas introspectivas e mostravam Ocean em tons preto e branco montando um estúdio.

A surpresa aliviante veio quando Blonde foi liberado, revelando 17 faixas inéditas de puro Frank Ocean. Em um ano como 2016, em que foram lançados ANTI, de Rihanna, Lemonade, de Beyoncé, e Life of Pablo, de Kanye West, parecia difícil alcançar posição de destaque. Mas a genialidade artística de Ocean fez com que Blonde, anteriormente intitulado “Boys Don’t Cry”, conquistasse um lugar especial no coração de todos os seus fãs.

Foto: Divulgação/Tumblr.

É difícil falar sobre Frank Ocean. O cantor, compositor, produtor norte-americano e idealista das noites mais bem descritas sonoramente, nasceu como Christopher Edwin Breaux, e já em 2012 roubou a cena com o lançamento do álbum que muitos podem dizer que mudou a sua vida. O Channel Orange completou seis anos em 2018, e foi incrivelmente descrito pela Samara Sequeira, na V!$H Midia, leia aqui.

Mas hoje o assunto é Blonde, e o Minuto Indie assume ser tarefa árdua falar de um álbum que consolidou a identidade de Frank a tal ponto, que não conseguimos definir Frank Ocean sem falar que é… Frank Ocean. Ele reinventou o modo de ser autêntico, sendo impossível de ser desvendado totalmente em sua unicidade, mesmo com alguns cursos por aí tentando ensinar. E passados quase dois anos de seu lançamento, não cabem mais reviews, faixa a faixa, resenhas ou críticas. Queremos saber o que o álbum representa para seus fãs, e por isso convidamos alguns para bater um papo com a gente. Pegue o café, aperte o play e acompanhe o papo com a gente.

 

Infelizmente eu não trabalho, nem estudo, só escuto o Blonde.

Começamos a conversa com Gabriela Almeida, 17, de Porto Alegre, que resumiu bem a sensação de ouvir o Blonde.

MI – O que vem à sua cabeça quando pensa sobre o Blonde? O que ele significa pra você?

Gabriela: Acho que a primeira palavra que me vem à cabeça quando penso no Blonde é “adolescência”. Talvez porque ele me lembre muito meu primeiro amor, principalmente as músicas “Ivy”, “White Ferrari” e “Close To You”. Eu não me comovo muito com música, mas o jeito que o Frank expressa as coisas é tão lindo que eu acabo sentindo até demais.

Felippe Morais, 19, de Porto Alegre, estudante de Jornalismo e fã apaixonado de Ocean, entrou para a conversa:

Felippe: Eu não sei descrever isso, é algo que só foi crescendo em mim. A forma como ele põe os sentimentos nas letras e as metáforas e analogias que ele usa. Além dos temas, e como ele consegue falar de tudo de uma maneira tão profunda em tão poucos versos é a maneira como eu me identifico com ele. Minha admiração pelo trabalho dele como um todo passa pelo jeito como ele trabalha ao redor de um conceito tão simples, quanto dualidade, e esculpe isso pra moldar o melhor álbum do ano de 2016 e de todos os anos.

Foto: Divulgação.

The Ogoin, que atende por João Prado, é um cantor e produtor mineiro de 21 anos, dono de um dos lançamentos mais incríveis de 2018, o EP Amarelo Manga, disponível aqui. Tivemos a honra de bater um papo com ele, que também falou da importância de Blonde:

The Ogoin: O Blonde tem um grau de especialidade muito pessoal pra mim, muito pela forma como ele veio, logo depois do Endless, porque o Endless foi uma quebra de expectativa. Havia uma ansiedade muito grande desde o Channel Orange, todo mundo esperava por um próximo material do Frank Ocean. A Adele falou em TV aberta na Inglaterra que tava esperando por um álbum do Frank Ocean. Quando veio o Endless, foi uma quebra muito grande de expectativa. Pelo grau de impessoalidade e experimentação, muita gente não entendeu muito bem a proposta e houve aquela quebra tipo “Ah, meu deus, esse é o próximo álbum do Frank Ocean, ele vai bancar a Björk”. E quando houve o anúncio de que teria mais um material, e depois disso veio o Blonde, quando eu dei o play pela primeira vez, ele foi especial porque foi aquele alívio de ser um álbum comercial aceitável, consumível de forma não experimental. É legal consumir um material que você sabe que o artista dedicou todo o seu sentimento dentro dele de forma experimental e meio arriscada, como foi o Endless, tanto visual quanto esteticamente e sonoramente, mas o Blonde tem esse alívio de ser um álbum mais comercial e usual, por ser do Frank Ocean depois do Channel Orange.

Blonde foi o primeiro álbum independente a ser o mais vendido desde 2013. O contrato de Ocean com a gravadora Def Jam havia se encerrado, e o cantor se viu livre para produzir o disco que consolidaria sua já alcançada posição de um dos maiores artistas de todos os tempos, dono de uma criatividade brilhante e de uma forma única de se expressar. Conversamos um pouco mais com os fãs para saber do impacto pessoal causado pelo álbum.

MI – Quais foram suas principais impressões sobre o Blonde? Pessoalmente, o que ele significa pra você?

Gabriela: Acho que não consigo ter muitas impressões por ele ser muito pessoal pra mim. Inclusive, eu tenho a mania de colocar “Pink + White” toda vez que estou tendo um momento bonito com as pessoas que gosto, porque parece que sempre se encaixa perfeitamente, sabe. Eu amo o Blonde porque o Frank conseguiu converter diversos dos meus sentimentos de um jeito que nem eu mesma consigo, e eu acho mágica a forma como ele retrata as coisas, principalmente a adolescência e os amores que ele teve. Em “Ivy”, quando ele diz que “no fundo o sentimento é bom”, eu acho que é por isso que lembra a adolescência pra mim. Porque adolescência é um mar de inseguranças, mas no fundo é um momento bom. Tem tantas partes boas também, como ele mesmo retrata… amores, amigos, a inocência que temos. Cada momento simples, que só pelo fato de termos pessoas que gostamos ao redor se torna incrível, ou até mesmo as encrencas que a gente se mete. É o que o álbum me faz querer vivenciar.

Foto: Divulgação/Tumblr.

Felippe: Tem muita pessoalidade envolvida, gosto de como ele consegue fazer uma frase ter inúmeros sentidos e brinca com as palavras de uma maneira única. A produção do álbum também é incrível, a beat e a troca de beat em “Nights” são lindas, as histórias que são muito pessoais do Frank e que, mesmo assim, ele consegue transmitir o sentimento todo, às vezes sem falar nada, só pela atmosfera. Todo o conceito de dualidade do álbum entre passado e futuro, presente até no título, já que na capa é Blond e o nome do álbum é Blonde por causa dessa dualidade de gênero.  O modo como ele usa algo tão simples como autotune na voz como recurso pra narrativa, o jeito que, mesmo sendo extremamente objetivo por serem experiências pessoais dele, as letras também crescem muito em quem tá ouvindo e criam imagens vívidas demais na sua mente, você associa às suas próprias situações.

É quase um abraço em forma de mp3.

Fora os assuntos que ele aborda, as participações do álbum que vão desde a Beyoncé e André 3000 até Yung Lean. E também a forma como ele te deixa melancólico por olhar pro passado e ansioso, até com medo do futuro, como nos dois interlúdios falando de coisas tão simples mas que ajudam tanto a construir a atmosfera do disco todo, como em “Be Yourself”, que é só um áudio de uma amiga da mãe do Frank Ocean falando sobre uso de drogas. É de uma composição incrível o jeito que ele consegue comunicar, desde a abertura fazendo analogia com o símbolo da Nike e um cheque assinado por causa do ✔ até o final, onde parece que depois dum turbilhão de lembranças, reflexões e epifanias, ele começa a falar “How far is a light year”Passa desde o estado do hip hop, o machismo dos artistas, como ele se sente ultrapassado musicalmente, brutalidade policial, até a própria luta pessoal dele. É algo muito denso e que muitas das primeiras vezes que eu ouvi eu não entendia, mas só a sonoridade e a maneira que tudo era posto é de uma sensibilidade tão incrível que o álbum ganhou um significado totalmente diferente pra mim.

Foto: Divulgação/Tumblr.

The Ogoin: Pra mim, que tenho o Frank Ocean como principal influência musicalmente, ele teve muitos pontos que eu pude usar e me sentir confortável em ver outro artista usando. Mesmo em uma discrepância muito grande de qualificações de artista, o fato dele estar mais à vontade pra brincar com memórias dentro do álbum, apesar dele já ter feito isso de certa forma no Channel Orange, no Blonde isso acontece de forma mais visual e mais simplista, o que deixa o álbum com um ar nostálgico gostoso. Ao contrário do Channel Orange, que era introspectivo e mais sentimental, com o Frank contando sobre histórias de amor que não deram certo, experiências não tão legais, o Blonde tem essa coisa de ser mais relaxado, mais “Pink + White”, mais “Ivy”, sabe. E isso é gostoso de sentir no álbum, essa vibe tio mais gostosinha de sentir e escutar. Inclusive minha parte preferida é início, que são as músicas que são importantes pra mim nesse quesito de identificação. Eu consegui me sentir à vontade ouvindo. Acho que o Blonde de uma forma geral é isto, é o Frank mais à vontade com sua imagem e mais tranquilo em relação à mensagem e à vibe que ele quer passar com o álbum. Então ele brinca mais com memórias que às vezes podem nem ser tão importantes pra outras pessoas, mas que cria essa atmosfera nostálgica e gostosa de ouvir.

Tende a ser esse sentimento que parece aquela fumacinha do pica-pau que te leva, sabe?

Isso é gostoso porque foge um pouco da proposta normal de um álbum sentimental, que é intensificar os sentimentos o máximo possível, ser muito romântico ou muito introspectivo, ter muita tristeza. O Blonde não, ele é essa calmaria de sentimentos. Até as músicas que têm um peso maior de sentimentalismo não são tão pesadas quanto seriam em um álbum com essa proposta. Assim foi a forma que eu recebi o Blonde e é essa a forma que eu escuto ele até hoje.

Foto: Divulgação.

Conversando com os fãs, a conclusão que fica é a de que Blonde é um álbum que consegue passar todo tipo de sensação de forma própria. Mesmo que de um modo sonoramente moldado por Ocean, toda a atmosfera consegue ser sentida pelos ouvintes, as situações que o cantor descreve são imagéticas através da música, e nos vemos sentindo algo perto do que Frank sente nas canções.

Todas as impressões causadas pelo álbum se resumem na ideia de que é um registro sólido, envolvente, que marca as pessoas de um jeito pessoal e faz pensar sobre diversas situações sob a ótica frank-oceana. Perceber nossas situações e sentimentos registrados com tanta fidelidade em trabalhos de artistas parece difícil a priori, mas Ocean conseguiu nos levar pra essa onda de forma certeira e nostálgica.

Na janela, ouvindo “Nights”, fumando um cigarro, tudo parece estático por um momento. Quando ouvimos “We’ll never be those kids again”, em “Ivy”, dói perceber que provavelmente não seremos mesmo as mesmas pessoas que fomos em uma determinada época. Mas “Godspeed” nos faz gostar das pessoas que éramos, das situações que vivemos e nos move a se empolgar com o que está por vir. Frank Ocean delineia um caminho de emoções potencialmente encaixadas em um álbum que vai sempre nos fazer pensar, chorar, sorrir, ou mesmo só acender um cigarro e curtir a vibe que ele traz. É bonito, nostálgico, emocionante. É Frank Ocean e só, não precisa de mais nada.

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